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terça-feira, 27 de novembro de 2007

Balada de um Palhaço - Plínio Marcos.

"Pára com isso! Pára com isso! (Menelão pára, Bobo Plin se contém.) E escuta. Escuta bem com seus dois ouvidos. (Pausa. Toma fôlego.) Eu não entrei na trilha dos saltimbancos por acaso, nem para ser um reles fazedor de graça. Eu queria consagrar a minha vida através do ofício que escolhi, obedecendo a um imperioso apelo vocacional. Mas você, você, com sua ganância... suas receitas de sucesso, você, você, você sim, você Menelão, sem nenhum escrúpulo, sem nenhuma sensibilidade, veio me falar de mil e um palhaços geniais.
Olha, Bobo Plin, tem um que é de total pureza. Ele comove multidões quando aprisiona um raio de sol e o leva para casa. Tem um que faz balões de gás dançarem quando toca sua trompete. Teve um que ridicularizou um tirano, assasino sanguinário que queria ser o senhor absoluto do mundo. E o magro sonso. E o gordo ingênuo e bravo. E o cumprido de calça pela canela, arcado pra frente devido ao pesado fardo da indignação constante e sincera contra a mecanização imposta ao homem moderno. Tem também, você me dizia, os que dão piruetas, os que saltam, dão cambalhotas, levam bofetões, os que tocam música clássica em garrafas vazias penduradas nun varal.
Tem outro... e outro... e outro... Me contou até que tinha um pobre palhaço louco, que queria ser jogral de Nossa Senhora Mãe Santíssima e que andava pelas igrejas jogando malabares diante das imagens da Santa Maria. Esse, você me disse, morreu enforcado na crus do Senhor Jesus Cristo, numa catedral Gótica. (Pausa.)
Escutei humilde a história de cada um desses incríveis artistas que viajavam pelas vias da loucura. Mas saber desses palhaços para mim, Bobo Plin, um palhacinho de merda que começava a engatinhar nos picadeiros mal iluminados das espeluncas, só serviu para me tolher. Quanto mais eu sabia deles, mais e mais Bobo Plin, o palhaço que eu queria ser, se enroscava nas minhas tripas, se sufucava nas minhas entranhas. A referência esmagava a minha intuição e me forçava à auto-censura. A comparação, a maldita inimiga da igualdade, fazia dos magníficos histriões elementos inibidores da minha criatividade. Agora, eu não quero, Bobo Plin não quer saber da façanha desses belos palhaços. Não quero vê-los. Nem saber dos seus bigodes, sapatões, guizos, pompons, bolas, balões e babados.(Bobo Plin ajoelha-se na frente de Menelão, que está jogado no chão, pasmo de espanto.)
A magia dos grandes artistas, Menelão, não pode ser ensinada. São segredos que se aprendem com o coração, mas ninguém ensina. Essa magia está dentro de cada um, antes mesmo de cada um tomar conhecimento dela. Essa magia se manifesta quando se resolve fazer a própria alma. Para Bobo Plin se irmanar com os grandes palhaços que luziram nos palcos e picadeiros, tem que se esquecer deles para sempre. Não pode recolher nenhuma indicação que eles deixaram pelo caminho, (Bobo Plin olha para o infinito com olhar de loucura.)
Bobo Plin tem que andar sem bússola na mais tenebrosa escuridão. Qualquer brilho, qualquer estrela, qualquer sol referêncial é um ponto hipnótico embrutecedor. (Pára Menelão.) Menelão, eu quero fazer minha alma. Preciso fazer minha alma. Quero tentar."

Trecho do Livro Balada de um Palhaço de Plínio Marcos.
Texto no qual irei apresentar na seleção da USP para a EAD, (Escola de Arte Dramática).
Um beijo a todos.

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Um comentário:

Walter Guaru disse...

Querido amigo anônimo, ou melhor, nome vc tem mas não nos conhecemos. Sou santista como o Plínio e lí esse texto faz muitos anos. Sempre o cito pros meus alunos de fotografía, mas as vezes que o busquei não tive sucesso.
Aqui está ele e vai direto pros e-mails dos "sossegados", como dizia o Plínio. Obrigado. Tenho um blog, walter-guaru.blogspot.com. Aparece!